Terra

Haverá outros modos de viver nela? Desde que se tornou objeto de exploração econômica não abriu-se outro futuro para ela se não aquele da insustentabilidade. Ocupada, cultivada e privatizada com intensidade sempre mais selvagem acabou envolvida também numa crise climática que não é dela.

Pouco sabemos de como pode ter sido seu primitivo estado natural. Se alguma saudade houver, não será por lembrarmos de suas formas e cores, mas apenas porque dela nossa vida nasceu e sobre ela percorremos nossos primeiros milhares de anos. Até parar e dar início à sua domação: a domesticamos, a fizemos à nossa imagem e semelhança, até civiliza-la e globalizar-lhe a função de objeto; até urbaniza-la em retalhos de inviolável privacidade doméstica; até nacionaliza-la entre patrióticas fronteiras armadas. Ninguém mais verá um só pedaço de terra integralmente natural.

Mas talvez ainda possamos recuperar modos diferentes de viver nela, de viver com ela sem tirar a vida dela. Quando então será difícil compreender os tempos em que ambientalista acreditava em desenvolvimento sustentável feito sob medida para tornar insustentável toda forma natural de viver.

(Nestore – 01.05.17)

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Fim de Ano

É quando abre-se a porta por onde sai a longa fila dos últimos 360 dias. Levam memórias e estampas de vida, datas pra sempre gravadas de tão felizes ou choradas, doçuras, amarguras, sentimentos e emoções que nos apraz reviver e outras que gostaríamos de nunca mais sentir. Vão-se dias inteiros sem nada dizer, que nem parece terem sido nossos,  no meio de outros que levam consigo  olhares amigos, momentos de prazer e aquele monte de coisas só nossas, pensamentos nunca formulados, palavras jamais pronunciadas.

Tempo de bons augúrios. Mesmo sabendo que a vida é um  comboio de horas que corre estradas de muitos sentidos obrigatórios e poucos sinais alternativos; que o ano novo repetirá modos antigos e experiências vividas; e proporá idas e vindas sob o calor do mesmo sol e à claridade da mesma lua, DESEJAMOS que os novos dias surpreendam, devolvam ocasiões perdidas  e realizem o milagre de inaugurar tempos novos sem perturbar confortos conquistados e equilíbrios estabelecidos.   Um 2017, enfim, que caiba na palma da mão e aqueça o coração.

Ao apagar das luzes que souberam brilhar neste duro e escuro 2016, OBRIGADO! (Nestore)

BICHOS E RODAS

Desde que homem é homem é assim que ele sente e pensa: como você e eu hoje. Ciência, tecnologia e ferramentas por ele próprio construídas a parte, o homem contemporâneo tem percepções e emoções idênticas às do homem primitivo. A espécie é uma só, assim surgiu, assim permanece. A ilusão de ouvir algo novo em comportamentos e juízos é simples e natural ignorância daquilo que já foi dito. Veja esta (retirada de J.H.Dacanal).

Há 2 mil e 100 anos Cícero lembrava a seus leitores que Pitágoras e Empédocles, uns 500 anos antes, proclamavam os direitos universais de todos os seres vivos, ameaçando com terríveis penas aquele que se atrevesse a violar o direito de um animal qualquer. E concluía: prejudicar os animais é, pois, um crime.

Nem porque alguém já disse, é lícito, claro, deixar de dizer as coisas nas quais se acredita. Há sempre alguém que não deu de cara com Pitágoras aí na esquina. Dizer é preciso, fabricar milhões de rodas por dia, também. Achar que tudo é novidade, nem tanto.

VIDA E AMBIENTE

O planeta terra independe da vida que há nele. É a vida que depende do planeta. Achar porém que cuidar do planeta equivale a garantir a sobrevivência das espécies é simplificar demais as coisas. O tempo da relação de amparo integral de um para a outra já passou. Desde que o homem ocupou cada recanto e fez da desigualdade entre os seus o padrão social da espécie, o que nos cabe é antes de tudo repensar as condições e a qualidade de vida humana instaladas. É ilusório achar que o planeta, se bem tratado, dará conta de uma humanidade caoticamente maltratada e que esta saberá cuidar daquele.

O ponto fraco somos nós, tal qual nos fizemos, não o planeta. Se este tem 6 bilhões de anos é provável que tenha outros tantos até se consumir. De todo modo, nenhuma forma de vida terá tantos. Nenhuma pode esperar ter. E menos que as demais terá a humana, em razão dos desequilíbrios de seu organismo social mais do que em razão de debilidades ambientais.

O foco das preocupações com a conservação da vida anda um tanto deslocado. Talvez por ingenuidade de parte do ambientalista, certamente por interesse próprio de parte dos privilegiados, dá-se importância e urgência de menos ao poder catastrófico das desigualdades entre os homens – condição negativa de sustentabilidade por impedir justamente cuidados elementares com o ambiente.

A VIDA NA BALANÇA

Numa terra embutida com sistema de pesagem seletiva dos caminhantes, a massa dos humanos somaria uns 300 milhões de toneladas, aquela combinada de vacas, porcos, ovelhas e frangos daria cerca de 700 milhões de toneladas; e todos juntos, os grandes animais selvagens, elefantes, baleias e hipopótamos inclusos, mal chegariam a 100 milhões de toneladas.

E se também os contasse, informaria que pisam nela 80 mil girafas, 1,5 bilhões de cabeças de gado, 200 mil lobos, 400 milhões de cachorros; e míseros 250 mil chimpanzés ao lado de 7 bilhões de homens.

Pra dizer que o homem tomou conta de vez da vida na terra: do mundo em carne e osso, representado acima, compensado com um mundo de foto-imagens cheio de lobos, chimpanzés e altas girafas.

(Nestore Codenotti – 10.10.16)

OBS – os dados não são meus nem da mãe terra, mas a fonte é honesta (veja Yuval Noah Harari)

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Eleições

45-face

Nos limites da percepção pessoal, diria que a campanha local está bem comportada, verbalmente comedida, visualmente limpa. Elogios à cidadania, portanto, visto que eleição é coisa de todos por contar com a expectativa de vitória na mente do candidato e com a esperança de benéficas consequências na mente do eleitor.

A lógica do processo, sabemos, tem lá seu viés: atribui ao candidato tanto a carga da frustração pessoal em caso de derrota como o compromisso de realização das esperanças alheias em caso de vitória; obriga-o a uma campanha propositiva, que a urgência pode muito bem reduzir a rosário de promessas levianas, e faz do voto um ato de fé, que a imposição da lei pode muito bem reduzir a aposta aleatória.

Contra impasses e riscos, vale criatividade. Se jogo é jogo apesar de regras que o fazem desigual, agrada-me pensar e desejar que ao apito final suceda a FESTA DO PROMETIDO, onde o vencedor recebe o pacote das promessas disputadas e, pouco ou tanto, votadas, e todos os prometedores se unem no desafio de cumpri-las.

Vai que a coisa se alastre pelo mundo e torne Passo Fundo/RS uma cidade global!
Nestore Codenotti