A Conservação

Os animais abrigados no Primaves contam uma história individual que inicia por uma circunstância básica comum: o afastamento forçado ou acidental do ambiente de origem e do grupo familiar.  A partir disso, a história de cada um não prescinde da qualidade genética que os une: nascidos selvagens, domésticos nunca serão. De acordo com a espécie, ocorrerão adaptações diferenciadas ao processo de domesticação cativa ou humanização imposta pelo contato humano do momento, sem, contudo, anulação radical de memórias e tendências congênitas.

O passar do tempo e o correr dos eventos trarão consequências inevitáveis e a todos eles similares:  impossibilidade espontânea de voltar ao lugar de origem,  incapacidade súbita de habitá-lo, se encontrado, dificuldade de se identificar com indivíduos todavia selvagens ou igualmente desafortunados de sua própria espécie. Em suma, teremos seres essencialmente deslocados e confusos, nunca de todo assimilados ao mundo alternativo que os prende.

Agora, a passagem do comércio, posse ou cativeiro ilegais para um abrigo como o PRIMAVES a fim de garantir-lhes sobrevivência e  bem-estar não é isenta de objeções, estúpidas, como a alternativa assassina da simples, cômoda e apressada soltura, ou desafiadoras, como o desejável retorno ou reintrodução ao modo natural de viver. A operacionalização desta última, porém,  por ser ideal, também pode não passar, na prática, de idealista. É o nosso caso. Variáveis e pressupostos da reintrodução, como idade do sujeito no momento da separação de sua população e habitat; tempo e eventos transcorridos daí em diante; localização e estado de preservação atuais do território original ou de outro apto a viabilizar a readaptação; estrutura, competência e recursos financeiros apropriados são, todos eles, estranhos ao modus operandi do Primaves, que, além do mais, trabalha com centenas de espécimes enquanto uma atividade de reintegração lidará necessariamente com poucos e selecionados indivíduos de cada vez.

Em resumo: nosso trabalho de CONSERVAÇÃO assume que toda vida veio para ser vivida, que qualquer ser vivo tem direito pleno ao tipo de existência da espécie à qual pertence e que, se extinções acontecerem, haverá de ser por eventos naturais. Quer dizer: realizamos com competência e resultados extraordinariamente generosos a conservação de vidas; e procuramos satisfazer nos limites do possível e do razoável as exigências naturais dos seres atendidos. Nossa ajuda solidária a quantos trabalham ou possam vir a trabalhar em programas de REINTRODUÇÃO, por outro lado, é manifesta. Assim como nossa humana compreensão por quem, não fazendo nem uma coisa nem outra, sugere, graciosamente,  que façamos as duas.

Bom e Feliz Natal-Família a todos, de Nestore e equipes Convidas – 04.12.18

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Ambiente fechado

Concordo perfeitamente: investir na educação ambiental das crianças é investir no futuro da conservação da natureza. E também: tenha você 20, 30, 50 ou mais anos de vida urbana terá ouvido falar de lixo, consumo e poluição desde criança, e se algo mais parece-lhe saber agora  deve ser que o lixo aumentou, o consumo é a mola do progresso, a poluição chegou aos céus e que  não é por falta de dados e estudos em matéria de meio ambiente que o planeta está no sufoco. Concluo, portanto, que a educação das “futuras” gerações em matéria ambiente não rende tanto assim. Pelo menos, a educação de sala de aula, a educação de olho nos fatos do mundo urbano e focada  na limpeza da calçada de frente de casa.

O que é afinal educação ambiental se não introdução à observação e compreensão dos fenômenos naturais; sentir o cheiro da terra, o gosto de seus frutos, o respiro poderoso da sua vida pela alternância de humores e estações; a surpresa de encontros com  novas formas de vida animal e vegetal; sentir-se em casa, enfim, ao caminhar sobre ela, a terra, e nela, a natureza?

Ambientalista “desambientado” que pra saber do tempo já não olha para o céu, que não sabe ler, mas para o celular, terá que  abrir as portas da natureza e meter-se nela e nela levar o aprendiz. Entre paredes, pode não perceber de ser apenas  um mestre de limpeza e higiene domésticas.

(Nestore)

Terra

Haverá outros modos de viver nela? Desde que se tornou objeto de exploração econômica não abriu-se outro futuro para ela se não aquele da insustentabilidade. Ocupada, cultivada e privatizada com intensidade sempre mais selvagem acabou envolvida também numa crise climática que não é dela.

Pouco sabemos de como pode ter sido seu primitivo estado natural. Se alguma saudade houver, não será por lembrarmos de suas formas e cores, mas apenas porque dela nossa vida nasceu e sobre ela percorremos nossos primeiros milhares de anos. Até parar e dar início à sua domação: a domesticamos, a fizemos à nossa imagem e semelhança, até civiliza-la e globalizar-lhe a função de objeto; até urbaniza-la em retalhos de inviolável privacidade doméstica; até nacionaliza-la entre patrióticas fronteiras armadas. Ninguém mais verá um só pedaço de terra integralmente natural.

Mas talvez ainda possamos recuperar modos diferentes de viver nela, de viver com ela sem tirar a vida dela. Quando então será difícil compreender os tempos em que ambientalista acreditava em desenvolvimento sustentável feito sob medida para tornar insustentável toda forma natural de viver.

(Nestore – 01.05.17)

Fim de Ano

É quando abre-se a porta por onde sai a longa fila dos últimos 360 dias. Levam memórias e estampas de vida, datas pra sempre gravadas de tão felizes ou choradas, doçuras, amarguras, sentimentos e emoções que nos apraz reviver e outras que gostaríamos de nunca mais sentir. Vão-se dias inteiros sem nada dizer, que nem parece terem sido nossos,  no meio de outros que levam consigo  olhares amigos, momentos de prazer e aquele monte de coisas só nossas, pensamentos nunca formulados, palavras jamais pronunciadas.

Tempo de bons augúrios. Mesmo sabendo que a vida é um  comboio de horas que corre estradas de muitos sentidos obrigatórios e poucos sinais alternativos; que o ano novo repetirá modos antigos e experiências vividas; e proporá idas e vindas sob o calor do mesmo sol e à claridade da mesma lua, DESEJAMOS que os novos dias surpreendam, devolvam ocasiões perdidas  e realizem o milagre de inaugurar tempos novos sem perturbar confortos conquistados e equilíbrios estabelecidos.   Um 2017, enfim, que caiba na palma da mão e aqueça o coração.

Ao apagar das luzes que souberam brilhar neste duro e escuro 2016, OBRIGADO! (Nestore)

BICHOS E RODAS

Desde que homem é homem é assim que ele sente e pensa: como você e eu hoje. Ciência, tecnologia e ferramentas por ele próprio construídas a parte, o homem contemporâneo tem percepções e emoções idênticas às do homem primitivo. A espécie é uma só, assim surgiu, assim permanece. A ilusão de ouvir algo novo em comportamentos e juízos é simples e natural ignorância daquilo que já foi dito. Veja esta (retirada de J.H.Dacanal).

Há 2 mil e 100 anos Cícero lembrava a seus leitores que Pitágoras e Empédocles, uns 500 anos antes, proclamavam os direitos universais de todos os seres vivos, ameaçando com terríveis penas aquele que se atrevesse a violar o direito de um animal qualquer. E concluía: prejudicar os animais é, pois, um crime.

Nem porque alguém já disse, é lícito, claro, deixar de dizer as coisas nas quais se acredita. Há sempre alguém que não deu de cara com Pitágoras aí na esquina. Dizer é preciso, fabricar milhões de rodas por dia, também. Achar que tudo é novidade, nem tanto.

VIDA E AMBIENTE

O planeta terra independe da vida que há nele. É a vida que depende do planeta. Achar porém que cuidar do planeta equivale a garantir a sobrevivência das espécies é simplificar demais as coisas. O tempo da relação de amparo integral de um para a outra já passou. Desde que o homem ocupou cada recanto e fez da desigualdade entre os seus o padrão social da espécie, o que nos cabe é antes de tudo repensar as condições e a qualidade de vida humana instaladas. É ilusório achar que o planeta, se bem tratado, dará conta de uma humanidade caoticamente maltratada e que esta saberá cuidar daquele.

O ponto fraco somos nós, tal qual nos fizemos, não o planeta. Se este tem 6 bilhões de anos é provável que tenha outros tantos até se consumir. De todo modo, nenhuma forma de vida terá tantos. Nenhuma pode esperar ter. E menos que as demais terá a humana, em razão dos desequilíbrios de seu organismo social mais do que em razão de debilidades ambientais.

O foco das preocupações com a conservação da vida anda um tanto deslocado. Talvez por ingenuidade de parte do ambientalista, certamente por interesse próprio de parte dos privilegiados, dá-se importância e urgência de menos ao poder catastrófico das desigualdades entre os homens – condição negativa de sustentabilidade por impedir justamente cuidados elementares com o ambiente.