Natureza Urbana

Para figurar a ideia do estranhamento surgido entre o mundo dos homens e o mundo da natureza recorro à marcha migratória do homem do campo nos anos 60 e 70, quando a cidade esvaziou o campo, o modo de produção da fazenda absorveu o modo de produção da colônia, a monocultura alastrou-se sobre a pequena propriedade e o camponês abandonou o seu canto.

O que terá marcado a consciência daqueles migrantes se não a angústia de deixar um ambiente natural familiar e previsível para entrar num ambiente urbano mal conhecido e imprevisível?

A imagem pode ser transferida para o contexto do afastamento entre homem e natureza. Novos modos de viver tornaram-se responsáveis por uma gradual deterioração ambiental sob forma de monoculturas arbóreas e agropecuárias, dióxido de carbono, eliminação de espécies, devastação de florestas e por uma difusa incerteza acerca das respostas do meio ambiente a tudo isso, sob forma de  imprevisibilidade  atmosférica e climática, fenômenos antes quase amigáveis na regularidade de seu comportamento.

Não faltam incertezas, mas é certo que agredimos a atmosfera, modificamos o clima, e que temperaturas e precipitações  tendem para índices extremos. Podemos achar que tais fenômenos já ocorreram em outros tempos e talvez sejam coisa da ação autônoma de forças naturais. Mas é difícil nos livrar da percepção que em boa parte são mesmo produto de nossos hábitos, de nossa economia e  forma de vida. No âmbito da gestão pública, pelo menos, qualquer insinuação contrária soará como ecologicamente incorreta. Governos do mundo inteiro  admitem os inconvenientes de um desenvolvimento desvinculado de seus efeitos ambientais e sociais.

O desafio é o da restauração de vínculos rompidos, a começar pela cidade enquanto síntese da aventura humana, habitat que exclui o modo natural de ser pela instalação do modo humano de viver, onde tudo é feito pelo homem em função do homem e as próprias lutas ambientalistas refletem  a preocupação do homem em relação a si mesmo. Não se trata mais de preservar um ou outro recanto verde de valor mais simbólico e nostálgico que ecológico, mas de restabelecer sobre o território ocupado plenas condições de biodiversidade e funcionalidade ambiental.

Não será o caso de centralizar o pedaço de planeta que habitamos como objeto prioritário de sustentabilidade no lugar do desenvolvimento que conhecemos?  Até  os gastos termos sustentável e derivados poderiam recuperar algum sentido.

(Nestore Codenotti – 11.04.16)

 

1290673956_99cbd8af06

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s